“Estima-se que, em 2026, a hiperatividade nas crianças seja a norma”

Fernando Rodrigues, neuropsicólogo e investigador- ICN Agency & PsicoSoma explica de que forma o consumo digital altera o cérebro e quais as implicações da omnipresença tecnológica nas nossas vidas.

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O uso da tecnologia transforma o funcionamento do nosso cérebro?
Os estudos disponíveis permitem dizer que há mudanças estruturais em várias zonas do cérebro nomeadamente no hipocampo, onde armazenamos memórias, que está a ficar mais pequeno.

Memorizar tornou-se uma competência menos adaptativa do que indexar, ou seja, localizar informação.

A exposição constante à tecnologia é inofensiva ou potencialmente aditiva?
O ser humano funciona de forma similar a um sistema operativo. Os gadgets estimulam o cérebro de muitas formas (auditiva, tátil, visual) e ativam alguns circuitos de recompensa (libertando dopamina): quanto mais se tem, mais se quer. O sucesso das redes sociais assenta nisso: estar ligado com todos, a toda a hora, numa lógica imediatista que depois se transfere para todas as áreas da vida.

Os contactos sociais, os namoros, tornam-se cada vez mais efémeros.

Porque não temos retiros de ‘detox’ digital, tão populares noutros países, no setor turístico?
Houve uma tentativa de um grupo francês, há uns anos, na Quinta da Romaneira (Douro). Fechou por falta de procura e dificuldade em admitir que se tem a dependência de apps, redes sociais, que produz o mesmo efeito que o jogo patológico mas, até há pouco tempo, estava classificada como um distúrbio no controlo dos impulsos.

Existe uma relação entre excesso de estimulação e hiperatividade?
As estimativas de investigadores que abordaram o tema num congresso internacional recente levantam uma questão inédita: estima-se que, em 2026, a prevalência de hiperatividade na população infantil seja de 52%, ou seja, a norma, nos EUA. E, se este funcionamento passar a ser a norma, justifica-se, como questionou uma psiquiatra nesse congresso, desenvolver fármacos para quem não é hiperativo?

Como encara esse futuro provável?
Mais ‘tecnostresse’ e menos desfrute?As crianças não vão poder comparar porque já nasceram num mundo em que todos estão ligados, num registo imediatista, volátil e orientado para a procura de novidade.

Ainda desconhecemos o impacto disto a médio prazo, mas imagino que haverá mais partilha, menos íntima e altruísta.

Que função vai ter o jogo, o brincar, cuja lógica não é comparável à da era pré digital?Era um meio para a criança aprender a resolver problemas e a autonomizar-se, na presença dos pais. Hoje, o jogo é a recompensa: “Passaste na escola, não fizeste birras, toma lá um prémio.” Sem um modelo afetivo, o risco é que se tornem autómatos, e não autónomos.

É possivel reverter esta tendência, sem perder os ganhos conquistados pela evolução?
Sim, porque temos plasticidade cerebral e o processo de maturação vai até aos 30 ou 40 anos. Temos mais competências mas podemos gerir melhor o uso dos gadgets. O nosso hipocampo, que se tem reduzido à conta deles, pode voltar a expandir-se.

Clara Soares (VISÃO nº 1172 de 20 de agosto)
19:00 Domingo, 23 de Agosto de 2015 |

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