COMO AS NEUROCIÊNCIAS CONTRIBUEM PARA A EDUCAÇÃO ESCOLAR?

O cérebro é o órgão responsável pela aprendizagem.

Durante a aprendizagem, educadores, professores e pais, por meio de suas práticas pedagógicas, fornecem estímulos que provocam transformações em circuitos neurais levando ao desenvolvimento e reorganização da estrutura cerebral, cuja função resulta em novos comportamentos e, portanto, em aprendizado.

Apesar da euforia em relação às contribuições das neurociências para a educação, é importante esclarecer que as neurociências não propõem uma nova pedagogia, mas fundamentam a prática pedagógica que já se realiza, demonstrando que estratégias pedagógicas, que respeitam a forma como o cérebro funciona, tendem a ser mais eficientes.

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Como o professor pode aplicar as neurociências no quotidiano escolar?


Neurociências

Constituem o conjunto das diversas áreas do conhecimento que pesquisam o Sistema Nervoso (SN). Elas estudam as moléculas que constituem os neurônios, os órgãos do SN e suas funções específicas, bem como o comportamento humano resultante da atividade dessas estruturas.

Os avanços das neurociências esclareceram muitos aspectos do funcionamento do SN, especialmente do cérebro, e permitiram a abordagem mais científica do processo ensino-aprendizagem. Funções relacionadas à cognição e às emoções, presentes no quotidiano e nas relações sociais, como dormir, comer, gostar, reconhecer, falar, compreender, ter atenção, esquecer, experimentar, ajudar, lembrar, calcular, planejar, julgar, rir, movimentar-se, trabalhar, emocionar- se, são comportamentos que dependem do funcionamento do cérebro. Educar é aprender também.


Comportamento humano

Resulta da atividade do conjunto de células nervosas, ou redes neurais, que constituem o SN. Depende do número de neurônios e suas substâncias químicas, da atividade destas células e da forma como os neurônios se conectam entre si, ou seja, da organização das sinapses e da troca de informações entre eles. “Informação”, para o neurônio, é a alteração das suas características eletroquímicas.

Quando o indivíduo está em interação com o mundo, exibindo um comportamento, vários conjuntos de neurônios, em diferentes áreas do SN, estão em funcionamento, ativados, trocando “informações”.


O cérebro em formação

Os cuidados com o pré-natal são fundamentais para o desenvolvimento adequado do SN. Neste período, cérebro, cerebelo, medula e tronco encefálico são formados. Conexões entre células nervosas – sinapses – determinadas geneticamente são estabelecidas e garantem a organização estrutural e funcional, fundamental para comportamentos típicos da espécie, como andar, comunicar-se, sugar, expressar emoções, entre outros.

Deficiências nutricionais, ingestão de certas substâncias químicas, infecção por vírus e protozoários, exposição a radiações e até informações genéticas ou cromossômicas erradas (Síndromes de Williams, Down, Asperger, autismo, dislexia, etc.) podem alterar a estrutura básica do SN.

A criança que tem um SN diferente apresentará comportamentos, habilidades, limitações e potencialidades cognitivas distintas das demais e poderá demandar estratégias de aprendizagem alternativas.


O cérebro na infância

Após o nascimento, a interação do bebê com o meio em que vive e os cuidados na primeira infância são muito significativos. Este é um período receptivo, de intenso desenvolvimento cerebral, em que as redes neurais são mais sensíveis, responsivos e vulneráveis às mudanças, quando novos comportamentos podem ser progressivamente adquiridos, preparando o cérebro para novas e mais complexas aprendizagens.

A educação infantil ou a oportunidade de exposição a estímulos sensoriais, motores, emocionais e sociais variados, frequentes e repetidos nessa fase, contribuirá para a manutenção das sinapses já estabelecidas, com preservação de comportamentos com os quais nascemos, e para a formação de novas sinapses, resultando no desenvolvimento de novos comportamentos.

Falta de estimulação pode levar à perda de sinapses e, portanto, à perda de alguns comportamentos. Crianças pouco estimuladas nos primeiros anos de vida podem apresentar dificuldade de aprendizagem porque o cérebro ainda não teve oportunidade de utilizar todo o potencial de reorganização de suas redes neurais.

Embora necessitem de mais estímulos e estratégias alternativas de aprendizagem, ainda terão chance de recuperar o tempo perdido e as habilidades não desenvolvidas no tempo mais fisiológico para cada uma delas. Um lar saudável, um ambiente familiar adequado, bons exemplos e uma boa escola podem fazer grande diferença no desenvolvimento escolar.

A ludicidade faz parte da aprendizagem nos Projeto Sociais.


Neuroplasticidade

É a propriedade de “fazer e desfazer” conexões entre neurônios. A neuroplasticidade possibilita a reorganização da estrutura do sistema nervoso e do cérebro, constituindo- se na base biológica da aprendizagem e do esquecimento.

Preservar as sinapses é, portanto, preservar as redes neurais relacionadas a comportamentos importantes para nossa sobrevivência. Aprendemos o que é significativo e necessário para viver bem e esquecemos aquilo que não tem mais relevância para o nosso viver.


Atenção

Função mental das mais importantes para a aprendizagem. Permite-nos se- lecionar o estímulo mais relevante e significativo, dentre outros aos quais estamos expostos, num determinado momento. A atenção é mobilizada pelos padrões cerebrais que já temos em nossos arquivos cerebrais (esquemas mentais) ou pelo que é muito novo.

É difícil prestar atenção por muito tempo. Intervalos ou mudanças de atividades são importantes para recuperar nossa capacidade de focar atenção. Dificilmente um aluno prestará atenção em informações que não tenham relação com seu arquivo de experiências, com seu quotidiano ou que não sejam significativas para ele. Nosso cérebro seleciona as informações mais relevantes para nosso bem-estar e sobrevivência e foca atenção nelas.


Memória

As estratégias pedagógicas devem utilizar recursos multissensoriais para ativação de múltiplas redes neurais que estabelecerão associação entre si. Se as informações/experiências forem repetidas, a atividade mais frequente dos neurônios relacionados a elas resultará em neuroplasticidade e produzirá si- napses mais consolidadas.

Os registos transitórios – memória operacional – serão transformados em registos mais definitivos – memória de longa duração. Quando o aluno estuda apenas na véspera da prova, mantém as informações na memória operacional. Assim que as utiliza na prova, garantindo a nota, esquece-as. A consolidação das memórias ocorre, pouco a pouco, a cada período de sono, quando as condições químicas cerebrais são propícias à neuroplasticidade.

Enquanto dormimos, o cérebro reorganiza suas sinapses, elimina aquelas em desuso e fortalece aquelas importantes para comportamentos do quotidiano do indivíduo. Dormir pouco dificulta a memorização. Para aprender, precisamos estar despertos e atentos para absorver a experiência sensorial, perceptual e significativa, mas necessitamos do sono para que essas experiências sejam memorizadas e, portanto, apreendidas.


Emoção

No cérebro, os neurônios das áreas que regulam as emoções relaciona- das ao medo, ansiedade, raiva, prazer, têm sinapses com neurônios de áreas importantes para formação de memórias. Poderíamos dizer que o desencadeamento de emoções favorece o estabelecimento de memórias. Aprendemos aquilo que nos emociona.


Espiral da aprendizagem

A memória não se forma de imediato, “da noite para o dia”. A formação de sinapses demanda reações químicas, produção de proteínas, tempo. Por isso, a aprendizagem requer reexposição aos conteúdos e experiências sob formas diferentes e níveis de complexidade crescentes. Preservamos na memória o que é importante para nosso quotidiano. Esquecemos o que não tem mais valor, significado ou aplicação para nossa vida.


Boa saúde

Exercícios físicos aumentam a quantidade de fatores neurotróficos que contribuem para estabilização das sinapses e para manutenção e formação de memórias. A dieta balanceada, incluindo proteínas, carboidratos, gorduras, sais minerais e vitaminas, possibilita o funcionamento das células nervosas, a formação de sinapses e da mielina, estrutura que participa da condução das informações entre redes neurais. Problemas respiratórios que perturbam o sono do aprendiz, anemia que diminui a quantidade de oxigênio para os neurônios, dificuldades auditivas e visuais que não são facilmente detectadas, entre outros fatores, podem contribuir para dificuldades de aprendizagem. É importante que o aprendiz esteja em boas condições gerais de saúde para aprender bem.

educar requer criatividade, autonomia, paixão, motivação,dedicação, empatia, paciência, inovação, tempo, trabalho, energia. Saber como o cérebro funciona também pode ajudar.


Adolescentes

O cérebro do adolescente ainda está em desenvolvimento, principalmente a área pré-frontal, parte mais anterior do lobo frontal, envolvida com as funções executivas, ou seja, com a elaboração das estratégias de comportamento para solução de problemas e autorregulação do comportamento. Cérebros adolescentes estão testando novos comportamentos com o objetivo de selecionar habilidades, atitudes, conhecimentos que sejam de fato proveitosos para a sobrevivência deles como adultos que serão. Eles aprendem o que os motiva, os emociona, o que desejam, aquilo que tem significado para eles. Transformar o conteúdo programático de uma disciplina em algo relevante para o aprendiz é um grande desafio para o professor.


Dificuldades de aprendizagem

Outros fatores, além dos mencionados, influenciam a aprendizagem. Entre eles, aprendizes sem condições de adquirir material escolar, sem ambiente para o estudo em casa, sem acesso a livros e jornais, sem incentivo ou estimulação dos pais e/ou dos professores. Isso tudo priva o aluno das experiências sensoriais, perceptuais, motoras, motivacionais e emocionais, fundamentais para o funcionamento e a reorganização de seu sistema nervoso, embora não seja portadora de alterações cerebrais. Transtornos psiquiátricos, como o Transtorno do Deficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), depressão, entre outros, que demandam orientação médica e tratamento, também podem dificultar a aprendizagem.


Transtornos de aprendizagem

Dislexia e discalculia, entre outros, são dificuldades na aquisição de habilidades de escrita, leitura e do raciocínio lógico-matemático, causadas por uma organização cerebral diferente,

de provável determinação genética. Nesses casos, as crianças conseguirão aprender, mas necessitarão de estratégias alternativas de aprendizagem, uma vez que o cérebro desses indivíduos utiliza caminhos ou circuitos neuronais diferentes para atingir o mesmo resultado, ou seja, a aquisição do novo comportamento.


E quando não aprendemos?

O problema está sempre no cérebro? Nem sempre. Aprendizagem depende da saúde do indivíduo e não só do funcionamento cerebral. Depende também de fatores relacionados à comunidade, família, escola, meio ambiente em que vive o aprendiz e à sua história de vida. Professores e pais devem compartilhar as observações acerca das etapas e características do processo de ensino e aprendizagem do aluno e, se necessário, encaminhar a profissionais da saúde e da escola que indicarão o caso para outros profissionais se for necessário. A dificuldade de aprendizagem tem etiologia multifatorial e, portanto, a abordagem deve ser multidisciplinar.

FONTE
http://www.canal-e.pt/como-as-neurociencias-contribuem-para-a-educacao-escolar/

Leonor Bezerra Guerra*
*Bacharel em Medicina, Mestre em Fisiologia, Doutora em Morfologia pela UFMG. Especialista em Neuropsicologia pela Universidade FUMEC. Professora adjunta de Neuroanatomia no Departamento de Morfologia/ICB/UFMG. Docente do Programa de PG em Neurociências e Coordenadora do Projeto NeuroEduca/UFMG.

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